Há cerca de seis ou sete anos atrás, escutei pela primeira vez o discurso “This Is Water” de David Foster Wallace. Naquela época, já não era um discurso novo, mas lembro que me fez refletir, mas não como pela última vez que escutei há algumas semanas. Recentemente, enquanto navegava pelo YouTube, esse discurso veio até mim mais uma vez. Decidi escutá-lo outra vez e, dessa vez, fui levado a uma reflexão mais profunda, o que me motivou a escrever este texto.
Primeiro, Wallace começa seu discurso com a parábola dos peixes: dois jovens nadam distraídos até encontrar um peixe mais velho que lhes pergunta, “Bom dia, jovens, como está a água?”. Após nadarem um pouco, um deles se vira e questiona: “Que diabos é água?”. Essa situação simples, mas importante, onde revela o nosso ponto cego cotidiano. Aquilo que está ao nosso redor, e mesmo assim passa despercebido.
Em seguida, ele explora como operamos em modo piloto automático. Segundo Wallace, chegamos a conclusões precipitadas e deixamos o cérebro funcionar pelas “configurações padrão”. Para ilustrar essa mecânica, ele recorre à narrativa do ateu e do homem religioso perdidos em uma nevasca: salvo por esquimós, o ateu atribui tudo ao acaso e despreza qualquer conexão com a oração que fez momentos antes de ser encontrado. Aqui, Wallace mostra que tanto uma certeza religiosa extrema quanto uma descrença absoluta podem aprisionar o pensamento. Poderia se assemelhar a uma prisão que o prisioneiro nem sabe que está trancado.
Conectando essa ideia ao conceito de fixed mindset de Carol Dweck. Assim como o prisioneiro que desconhece que está trancado, o indivíduo de mentalidade fixa acredita ter todas as respostas, ignorando a necessidade de questionar suas próprias certezas. Para mim, o verdadeiro aprendizado não é obter as respostas, mas sim em desenvolver consciência crítica sobre as crenças que orientam nossas ações.
Avançando no discurso, Wallace lembra aos formandos que a rotina diária está repleta de tédio, frustrações pequenas e irritações banais. É nesses intervalos de monotonia que a atenção plena se torna essencial: diante do trânsito ou de uma fila interminável, onde o nosso piloto automático toma conta, e nos faz agir sem pensamento crítico. O desafio real consiste em escolher como reagir, exercendo controle sobre nossos pensamentos em vez de reagir no piloto automático.
Por fim, o refrão “Isto é água” assume o papel de mantra: um lembrete ritualístico para permanecer atento ao ordinário, valorizando cada momento. A verdadeira liberdade, segundo Wallace, não está na eliminação de situações desagradáveis, mas na capacidade de decidir, com esforço e intenção, onde colocamos nossa atenção e como reagimos às circunstâncias.
Ao revisitar este discurso mais uma vez, percebi que a verdadeira transformação não ocorre num único instante de clareza, mas na soma dos pequenos momentos de atenção que cultivamos dia após dia. Cada vez que escolhemos olhar para o invisível, estamos expandindo nossa liberdade interior. Que este discurso continue lembrando que a vida se mostra naquilo que decidimos enxergar, e a consciência plena é o única forma de curarmos a cegueira do nosso piloto automático.
